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A Maior Aflição de Todas – Por Liliane Prata

20 set

93716512“Foi assim: eu estava esperando um telefonema, e o telefonema não vinha, e eu ia ficando cada vez mais aflita. Era uma resposta que eu estava esperando, uma resposta do tipo sim ou não. Não era nada que causaria um, digamos, impacto incomensurável em toda a minha existência, mas certamente era algo que causava um impacto naquele meu dia e talvez num bom punhado de dias seguintes, e era algo que, com certeza, causava em mim enorme aflição.

Lendo o jornal desorganizado à minha frente e tomando xícaras e xícaras de chá, eu tentava compensar o telefonema que não vinha. Estava num café, celular na mesa, controlado por meus olhos como se pudesse fugir a qualquer instante. Às vezes, eu levantava os olhos do jornal e observava as pessoas à minha frente, cada uma com suas próprias xícaras e aflições. E então acabei pensando naquela que talvez seja a maior aflição de todas.

Geralmente, quando alguém está esperando uma resposta importante – se a promoção vai vir ou não, se foi aprovado ou reprovado no exame, se é sim ou não, um ou dez, amanhã ou só mês que vem… Se alguém está esperando uma resposta importante, geralmente a pessoa diz que quer saber logo a resposta. Melhor se a resposta for boa, mas se for ruim, que seja: ruim mesmo é a tortura do não saber. Lembro de uma amiga que desconfiava que o namorado iria terminar tudo – de manhã, ele tinha anunciado uma conversa misteriosa à noite, e essa amiga, coitada, passou o dia sem fazer nada direito. No fim da tarde, já exausta, desabafou: “Me liga logo e termina! Não aguento mais!”

A ironia é que viver é não saber. Quer dizer, saber um punhado de coisas, mas não saber outro punhado. Para começar, as coisas mais básicas: por que viemos e para onde vamos. O que fazemos aqui. Se tem algum sentido regendo essa loucura toda.

Queremos que nosso telefone toque com todas as respostas, mas só nos resta a aflição de seguir no silêncio. São questões que talvez sejam respondidas satisfatoriamente daqui a alguns séculos, ou talvez o mundo acabe sem que sejam. Há, claro, os que dizem ter visões, ouvir coisas, sentir coisas, saber das coisas. Esses têm sorte. O resto precisa se contentar com a ignorância – ou, no auge da aflição, com respostas enfiadas à força no lugar das perguntas. O que importa é encerrar o mistério.

No café, volto meu olhar para o celular, e então para o jornal, mas não estou lendo mais – agora, penso em Irmãos Karamazov: “Temos diante de nós um mistério que não podemos apreender. E, justo por ser um mistério, tivemos o direito de pregá-lo, de ensinar ao povo que o que importa não é a liberdade nem o amor, mas o enigma, o segredo, o mistério diante do qual eles devem se curvar”.

Mas quem se curva ao mistério? Certamente, não os fanáticos religiosos. Nem os céticos convictos. Nem os intolerantes de nenhuma espécie: esses têm respostas para tudo. De modo geral, a humanidade não se curva. Quer saber. Precisa saber. Pois como se organizar sem saber? Como prender, soltar, ordenar, classificar, deferir, indeferir… Sem saber?

É possível?

Naquele instante, no café, tentando bobamente resolver em mim todos os dilemas do mundo, penso que sim, é possível. Que podemos, independentemente da nossa fé pessoal, encontrar um sentido para a vida na própria vida. Que as regras não precisam ter um fundamento transcendente e tudo bem. Tomo mais um gole do meu chá e meus pensamentos mudam de rumo: agora penso que bom seria se só as questões metafísicas não tivessem uma resposta…

No dia a dia, entre tirar dinheiro no banco, resolver pendências e trabalhar, a metafísica acaba mesmo sendo esquecida e vivemos como se não fôssemos morrer. Resta-nos o mundo físico, mas esse também está tomado pelo não saber: tomamos uma decisão hoje e não sabemos se a consequência será a que desejamos, encerramos relacionamentos e empregos, largamos tudo, recomeçamos tudo… Sem nunca sabermos onde vai dar, sem nunca ter garantias. Cruzamos a próxima esquina sem saber o que nos espera, dormimos sem saber como vamos acordar, nosso pâncreas está funcionando perfeitamente hoje, mas e amanhã? Mesmo a mais racional das decisões acaba sendo um tiro no escuro, como todas as outras: quem nunca fez tudo como deveria ser feito e não deu em nada?

Viver é mesmo muito perigoso. Assustador. Exige coragem. Penso mais uma vez na minha amiga, a que preferia uma resposta ruim ao não saber. Mas é preferível não viver, ou não viver de verdade, a conviver com o peso do não saber? Penso que não. Suspiro, tentando frear meus devaneios. À minha frente, a xícara de chá quase vazia: é hora de pedir outro. Ao lado dela, o telefone que não toca.”

Visitem o blog da Liliane Prata!

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Sobre bebidas quentes e queimaduras

26 jul

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Era uma sexta feira a noite. Ela estava silenciosa, sentia frio. Estava agarrada ao seu edredom e sua xícara ao lado, na cabeceira. Tinha um olhar misterioso e perdido. Piscava pouco. Pensava muito. Decidiu beber um gole da sua bebida, mas já estava fria. Vestiu o roupão e foi até a cozinha, despejou a bebida no bule e a aqueceu no fogão.

Sentou-se no banco da cozinha, ainda séria e silenciosa. Com um leve toque, mexeu nos cabelos e apoiou sua mão no queixo e o cotovelo na mesa. Tinha o olhar fixo em um só ponto. Esperou cinco minutos e desligou o fogo. Despejou novamente a bebida na xícara e bebeu um gole. Se queimou, pois estava muito quente e a bebida já não tinha o mesmo gosto bom de antes. E de seus olhos escorreram lágrimas que foram logo limpadas com as próprias mãos.

Sem pensar, jogou a bebida quente na pia e lavou a xícara. Estava pronta para outras bebidas. Mais mornas, mais gostosas, novas, frescas. Ela deu uma risada abafada. Estava sozinha. Sentiu um alívio por isso. Voltou para o quarto, deitou-se, desligou o abajur e tentou dormir. O dia de amanhã estava chegando e, por mais sensível que ela fosse, a queimadura iria sarar.

Cadê você?

9 jan

159108335 Demorei a ter forças para entrar nessa. Fui criando devagar, alimentando esse sentimento bom que tenho aqui. Até que um dia me convenci de que era melhor arriscar e não mais reprimir esse sentimento. E fui. E me venci. Me superei. Passei dos meus limites. Ouso até dizer que me prejudiquei. Por você.

Seria capaz de fazer bem mais se você permitisse, mas o seu silêncio me engole, me detona, me paralisa e até me magoa. E fico sem saber dar qualquer outro passo. Sem um sim, sem um não. Sequer um talvez. Estamos ligados de alguma forma e vai ver até sempre estivemos e nem sabemos… Não sei nem se um dia você estará lendo isso ou sabendo o que se passa aqui. Também não quero contar. Quero mostrar.

Antes dizia que se tivesse de ser eu a dar o primeiro passo, daria. E assim o fiz. Mas agora já não cabe mais a mim. Estou saindo dessa, com a mesma consciência de dever com a qual entrei. Porém, mais madura, mais forte, mais decidida e mais mulher.

E sabe de uma coisa? Se for mesmo pra ser, quem tem que dar muitos primeiros passos é você. E logo. Antes que me perca de vista no horizonte da vida. Ou me ganhe, quem sabe.

Paciência, flor

8 jan

144580279     Paciência, flor. Sua vida não vai ser tirada por causa de uma tempestade forte. Sua vida também não será perfeita e você será feliz para sempre por causa daquele lindo dia de sol. A tempestade te deixa murcha mesmo, dá aquela apagada no brilho, na própria vida. Mas sol demais desidrata, sabia?

Não se renda a tempestade. Ela passa. Muito menos se entregue e faça promessas nos dias de sol, pois nem todo dia ele sai. Transforma a tristeza em força pra continuar e a felicidade em sorriso pra compartilhar os momentos bons!

Chora, flor. Chora até não aguentar mais e essa vontade passar. Mas também sorria. Sorria até as bochechas doerem, pois sorrir é cura pra alma! E tenha paciência, flor. Não esqueça que tudo passa, até essa sua tristeza que parece interminável.

E o que tem que chegar, uma hora chega. Vem a calmaria. O conforto. O alívio. O equilíbrio entre a tempestade e o sol escaldante. E com essa sensação boa, eu posso me sentir viva, humana. E ao mesmo tempo, simples e singela: como a tal flor.

Estrela Cadente

25 dez

89127245    Da minha janela vi uma estrela cadente e desejei: ser muito feliz e fazer muito feliz quem estiver a minha volta. E fui ouvida! Deus me deu a felicidade em forma de sorriso. Então, se eu já sorri pra você, pode ter certeza: te desejo muita felicidade.

Mas eu sorrio a toa, desejo felicidade alheia também. Então Deus me deu a felicidade em forma de um abraço, só para aqueles mais especiais e chegados, sabe? Portanto, se eu já te abracei forte, saiba que você tem, no mínimo, meu respeito e admiração.

Agora, se eu converso contigo, dou conselho, te escrevo, tô sempre ali do lado (mesmo longe), sorrio, abraço, dou risada e temos resenhas pra contar: te desejar felicidade é pouco, poquíssimo pro que eu realmente desejo. Felicidade, energia boa, banho de sal grosso e tudo de melhor que houver nesse mundo!

Em cada pessoa que amo, um pedaço de mim. Em mim, um pedaço de cada pessoa que amo. Agradeço por tudo, tudo mesmo. Por serem quem são. Por me fazerem quem sou. Pessoas assim conto nos dedos das mãos e dos pés.

Olhando novamente em direção ao céu, vi outra estrela cadente. E desta vez pedi: que cada estrela dessa ilumine o coração e caminho de cada um. Mais uma vez fui ouvida. E houve uma chuva de estrelas cadentes! Foi aí que acordei e percebi que estava sonhando. Mas era um sonho tão real! Podia sentir toda aquela magia, sentimento bom e a luz boa vinda da estrela.

Depois de alguns segundos (já acordada) resolvi olhar o calendário pelo celular. Logo percebi que de realidade tinha quase tudo nesse sonho. Era Natal!

A Porta

15 jul

A garota olhava para a porta e tinha uma vontade surreal de entrar. Ela sabia que era uma tarefa difícil passar por essa porta especial. Mas só tinha vontade e infelizmente isso não era o bastante. Olhava em outras direções, procurava outras portas, abria e espiava algumas mas só aquela especial a interessava.

Certo dia, a porta se abriu e dela saiu um anjo. Curiosa, a garota sorriu e perguntou:

– Como faço para passar por essa porta?

E ele respondeu calmamente:

– Só depende de você. Acredite que você pode e vai entrar. Mas é preciso que se esforce para tal. Tens todas as ferramentas necessárias para isso, inclusive a capacidade de saber utilizar cada uma delas. Isso é um diferencial. E aí sim, você estará pronta. Olhe só a sua volta: veja seus amigos e sua família e o quanto eles confiam em você. E vais ficar aí parada esperando? Tenha fé em Deus, mas tenha fé em você também. Foi Ele que me mandou aqui para te dizer as palavras que você precisa ouvir para seguir em frente: “O homem de gênio, que se lança à realização de um grande empreendimento, triunfa, se tem fé, porque sente em si que pode e vai chegar ao fim colimado, certeza que lhe faculta imensa força. O homem de bem que, crente em seu futuro celeste, deseja encher de belas e nobres ações a sua existência, haure na sua fé, na certeza da felicidade que o espera, a força necessária, e ainda aí se operam milagres de caridade, de devotamento e de abnegação. Enfim, com a fé, não há maus pendores que não se chegue a vencer.”

O anjo foi abrindo a porta e entrando novamente de onde havia saído poucos minutos atrás. Hesitou um instante, olhou para a garota que agora chorava de emoção e felicidade e disse:

– Eu também acredito em você.

E entrou. A garota passou um certo tempo pensando nas palavras do anjo. Estava se perguntando o porque de tantas pessoas acreditarem nela e ela mesma não acreditar em si, na força que tinha e que daria permissão de passar pela porta que tanto sonhava. Foi então que começou a acreditar, ter a fé na concretização dos seus feitos de hoje e no ápse de felicidade que teria amanhã. Ela iria passar, estava escrito.

Depois de um certo tempo em que fiquei distante, voltei ao mesmo lugar e resolvi bater na porta para perguntar pela garota. Foi quando, para minha surpresa, ela mesma abriu a porta.

Trecho destacado retirado do Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec.

Mergulho Profundo

20 dez

    Mergulhei profundo no oceano de lágrimas que eu mesma criei. Entretanto, sabia que em algum momento teria que voltar à superfície, sair desse aparente mundo das ideias medíocre e instável. Já passara a hora de voltar e eu realmente não queria me afogar nos meus próprios sentimentos. Voltei, então, a realidade. Era hora de mudar.

Dei um basta na insignificância da minha simples existência. Quero dar toda vida que eu puder ao verbo viver. Da beira das águas do meu oceano, joguei com tamanha força os sentimentos que tomavam conta de mim de modo que todos afundaram. Os mais densos, que pesavam a alma do meu ser, permaneceram alojados nas profundezas. Já os mais leves, foram inusitadamente trazidos de volta à beira pelas ondas formadas pelas melhores vibrações possíveis. Naquele momento, tive a certeza de que aquilo que é realmente nosso, sempre volta. A densidade que pesava na minha consciência se foi, nunca me pertenceu.

Com os pés firmes no chão, livre de qualquer peso ou insanidade, continuei o caminho que escolhi para seguir. Apesar de estar ciente de que novos obstáculos viriam, me sentia mais leve a cada passo que dava. Afinal, ninguém está livre de obstáculos. Todos são livres para escolher entre tirá-los do caminho ou permanecer sem saída.

E assim vou seguindo… Apegando-me ao desapego e deixando o que passou para trás. Encerrando ciclos, dando lugar ao novo. Vou tropeçar algumas vezes, mas com a certeza de que levantarei após cada queda com a cabeça erguida para ir em frente.

Sim, quero voltar a mergulhar. Mas em novos oceanos, acompanhada de belos sorrisos, de alegrias e de tudo aquilo que me faz feliz. Ah, felicidade! A chave que abre todas as portas, afasta quaisquer obstáculos e nos faz sentir que podemos ir além do misterioso infinito que nos cerca. E podemos. Fazer a vida valer a pena na busca incessante de novas conquistas é uma das maneiras de se chegar onde quer.

Hoje, mais do que nunca, percebo que não sou feliz por caminhar. Mais que isso. Caminho porque sou feliz.

*Texto publicado na 20ª edição do Concurso Literário Palavra Vida, do ISBA. Clique aqui para saber mais!

Confissão de um garoto

14 out

Pensei que todas estariam a minha disposição a hora que eu quisesse pois, é claro, eu sou demais. Aliás, sempre fui! Nunca nenhuma garota me disse não, meus pais sempre me dão tudo o que quero, e é óbvio que nada (isso mesmo, nada) pode dar errado na minha vida. Bom, na verdade eu achava isso até semana passada. Como sete míseros dias mudam a vida de uma pessoa tão rapidamente! Já chorei litros de lágrimas inconsoláveis, já me tranquei no quarto durante horas e bebia. Dormia, acordada, chorava, bebia. Achei que estava enlouquecendo, mas não chegou a tanto. Hoje posso ver que é algo normal pra um garoto como eu que bateu a cara na parede. E como doeu. Aprendi que nada é perfeito, como eu costumava achar. Eu não era perfeito. Ou melhor, eu não era perfeito para ela.

A Lya me disse um não bem grande. E o que me subiu foi raiva e ódio de não ter conseguido o que eu queria: ela. Mas deixei pra lá, e no outro dia eu me resolvia. Mas não consegui dormir. Aqueles olhos cor de mel não saíam da minha mente, dos meus sonhos e dos meus pensamentos. E não desisti dela. No outro dia corri para falar que eu estava pela primeira vez na minha vida perdidamente apaixonado. Lya abaixou os olhos e saiu sem dizer nada. No outro dia, recebi em minha casa uma carta dela. Fiquei muito feliz, porém, depois percebi que o  motivo da minha tristeza e solidão estão nessa carta, assim como os de gratidão e admiração por Lya, estavam lindamente escritos nela:

“Querido Leo,

doeu no fundo da minha alma te dizer não, porque eu te amo. Para mim você sempre foi especial, sempre me encantou com a sua graça, seu bom humor e a sua boa vontade. Mas me desculpe, com toda a beleza da sinceridade, eu não sou qualquer uma que você tem a hora que quiser. Não que eu seja melhor que todos, ou algo do tipo, mas por favor, se você me ama como diz que ama, me entenda. Certamente você não se lembra das vezes que me ignorou ou me deixou sozinha nas horas em que eu mais precisava. Não guardo rancor, muito pelo contrário… Se você me dissesse tudo o que você me disse hoje há algumas semanas atrás, certamente eu me jogaria nos seus braços. Mas agora já é tarde… Conheci o Victor há um certo tempo e vim me interessando por ele aos poucos e resolvi dar a chance para quem gosta de mim. E confesso que não me arrependo. A cada dia que passa estamos mais felizes. Não quero que você fique triste e acredito que não irá ficar, pois você é o garoto mais feliz, sorridente e realizado que eu conheço e que já tem tudo o que precisa para ser feliz. E é isso que me consola: saber que você vai ficar bem. Quero que saiba que eu te desejo toda a felicidade do mundo, apesar de já ter dito que você já a tem. Mesmo assim, te dou um conselho: olhe para as pessoas que estão ao seu redor. Você acha que olha, mas não as percebe.

Lya.”

Depois de ler essa carta, passei a achar Lya a garota mais incrível do mundo. Pena que a perdi por não enxergar as pessoas que estão ao meu redor. Tarde demais.


Desabafo de irmãs

8 out

 

– Mas como você já sabia, Ana Clarice? Não disse que acabou de descobrir os seus sentimentos por ele?

 – Eu só juntei as peças. A primeira vez que o vi não foi a primeira que o notei, é diferente. E esse exemplo que dei é a mesma coisa de que os meus sentimentos por ele já estavam claros há um certo tempo, porém só agora eu os notei.

 – Mas eu também não compreendo você, uma pessoa tão centrada, com essa criatura… Não acha meio estranho? Sei lá… Só queria que você soubesse a escolha que anda fazendo, ou até mesmo o que anda sentindo. Sério, ele não é pra você, até porque…

 – Chega Lílian. Não é só porque você é mais velha que está certa em tudo. Devemos nos ajudar, como irmãs. Agora que reconhecemos juntas o que estou sentindo, não acha que devo reconhecer também a pessoa a qual vou me envolver? Aliás, a qual já me envolveu com o seu lindo sorriso. Nunca havia me apaixonado por um sorriso. Mas o que importa é que cada um tem consciência de si, Lilly, não me leve a mal. Você mesmo disse que sou uma pessoa centrada… Não seria meio paradoxal alguém assim fazer uma besteira como você ta dizendo? Ou melhor, fazer uma seleção e ver quem é a melhor pessoa pra mim? A melhor pessoa para mim, em tese, pode não ser a melhor realmente. Temos que nos dar a chance, viver, sentir… Para depois sim, sentarmos aqui juntas novamente e trocarmos experiências, carinhos, conselhos e o mais importante: conclusões.

 E, sentindo-se a mais nova agora, Lílian deita no meu colo e pergunta:

 – O que você pretende fazer agora?

 Olhei nos olhos da minha irmã e disse-lhe sorrindo:

 – Me entregar.

 Lílian levantou-se e me deu um abraço inesperado.

 – Tô com você, pra tudo!

 Depois dessas palavras da minha irmã mais velha, tive a impressão de que não ganhei só o dia, mas a minha vida inteira.