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Desapego (Post nº 100!)

19 mar

desapegoHoje simplesmente olhei para o que um dia me fez sofrer tanto. Juro que tentei sofrer de novo e não consegui. E ri. De mim mesma e desse estado de graça que é o desapego. Amadureci. Estou pronta para ouvir nãos sem desabar. Desapego não é esquecer. É lembrar, recordar, lidar diretamente e até conversar sobre. Mas sem cair uma lágrima sequer.

Compreendi que a gente se basta, sabe? Que somos completos a ponto de ser quem queremos. Que temos planos com nós mesmos e muitas vezes não cumprimos por estarmos apegados à coisas que não dependem da gente. Muito menos do nosso amor.

Mas a vida, principalmente a nossa, ah, essa depende de todo amor do mundo que podemos dar! Ela só tem sentido se houver amor… Portanto, entregue-se aos planos que criou para si mesmo. E tenha consciência de que todo sofrimento é passageiro. A não ser que você entregue sua vida a ele. Dedique-se aos planos totalmente, fazendo tudo com todo amor que puder. O resultado virá na mesma proporção e o desapego é uma consequência que aparece para aquelas pessoas que aprenderam a ser completas da forma que são. Independentes sentimentalmente. Que se bastam.

E isso é tudo para quem um dia achou que não seria mais nada.

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A Maior Aflição de Todas – Por Liliane Prata

20 set

93716512“Foi assim: eu estava esperando um telefonema, e o telefonema não vinha, e eu ia ficando cada vez mais aflita. Era uma resposta que eu estava esperando, uma resposta do tipo sim ou não. Não era nada que causaria um, digamos, impacto incomensurável em toda a minha existência, mas certamente era algo que causava um impacto naquele meu dia e talvez num bom punhado de dias seguintes, e era algo que, com certeza, causava em mim enorme aflição.

Lendo o jornal desorganizado à minha frente e tomando xícaras e xícaras de chá, eu tentava compensar o telefonema que não vinha. Estava num café, celular na mesa, controlado por meus olhos como se pudesse fugir a qualquer instante. Às vezes, eu levantava os olhos do jornal e observava as pessoas à minha frente, cada uma com suas próprias xícaras e aflições. E então acabei pensando naquela que talvez seja a maior aflição de todas.

Geralmente, quando alguém está esperando uma resposta importante – se a promoção vai vir ou não, se foi aprovado ou reprovado no exame, se é sim ou não, um ou dez, amanhã ou só mês que vem… Se alguém está esperando uma resposta importante, geralmente a pessoa diz que quer saber logo a resposta. Melhor se a resposta for boa, mas se for ruim, que seja: ruim mesmo é a tortura do não saber. Lembro de uma amiga que desconfiava que o namorado iria terminar tudo – de manhã, ele tinha anunciado uma conversa misteriosa à noite, e essa amiga, coitada, passou o dia sem fazer nada direito. No fim da tarde, já exausta, desabafou: “Me liga logo e termina! Não aguento mais!”

A ironia é que viver é não saber. Quer dizer, saber um punhado de coisas, mas não saber outro punhado. Para começar, as coisas mais básicas: por que viemos e para onde vamos. O que fazemos aqui. Se tem algum sentido regendo essa loucura toda.

Queremos que nosso telefone toque com todas as respostas, mas só nos resta a aflição de seguir no silêncio. São questões que talvez sejam respondidas satisfatoriamente daqui a alguns séculos, ou talvez o mundo acabe sem que sejam. Há, claro, os que dizem ter visões, ouvir coisas, sentir coisas, saber das coisas. Esses têm sorte. O resto precisa se contentar com a ignorância – ou, no auge da aflição, com respostas enfiadas à força no lugar das perguntas. O que importa é encerrar o mistério.

No café, volto meu olhar para o celular, e então para o jornal, mas não estou lendo mais – agora, penso em Irmãos Karamazov: “Temos diante de nós um mistério que não podemos apreender. E, justo por ser um mistério, tivemos o direito de pregá-lo, de ensinar ao povo que o que importa não é a liberdade nem o amor, mas o enigma, o segredo, o mistério diante do qual eles devem se curvar”.

Mas quem se curva ao mistério? Certamente, não os fanáticos religiosos. Nem os céticos convictos. Nem os intolerantes de nenhuma espécie: esses têm respostas para tudo. De modo geral, a humanidade não se curva. Quer saber. Precisa saber. Pois como se organizar sem saber? Como prender, soltar, ordenar, classificar, deferir, indeferir… Sem saber?

É possível?

Naquele instante, no café, tentando bobamente resolver em mim todos os dilemas do mundo, penso que sim, é possível. Que podemos, independentemente da nossa fé pessoal, encontrar um sentido para a vida na própria vida. Que as regras não precisam ter um fundamento transcendente e tudo bem. Tomo mais um gole do meu chá e meus pensamentos mudam de rumo: agora penso que bom seria se só as questões metafísicas não tivessem uma resposta…

No dia a dia, entre tirar dinheiro no banco, resolver pendências e trabalhar, a metafísica acaba mesmo sendo esquecida e vivemos como se não fôssemos morrer. Resta-nos o mundo físico, mas esse também está tomado pelo não saber: tomamos uma decisão hoje e não sabemos se a consequência será a que desejamos, encerramos relacionamentos e empregos, largamos tudo, recomeçamos tudo… Sem nunca sabermos onde vai dar, sem nunca ter garantias. Cruzamos a próxima esquina sem saber o que nos espera, dormimos sem saber como vamos acordar, nosso pâncreas está funcionando perfeitamente hoje, mas e amanhã? Mesmo a mais racional das decisões acaba sendo um tiro no escuro, como todas as outras: quem nunca fez tudo como deveria ser feito e não deu em nada?

Viver é mesmo muito perigoso. Assustador. Exige coragem. Penso mais uma vez na minha amiga, a que preferia uma resposta ruim ao não saber. Mas é preferível não viver, ou não viver de verdade, a conviver com o peso do não saber? Penso que não. Suspiro, tentando frear meus devaneios. À minha frente, a xícara de chá quase vazia: é hora de pedir outro. Ao lado dela, o telefone que não toca.”

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A Pequena e o Sonho – Por Micaela Rabelo Quadra

28 ago

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“Era uma vez uma pequena que tinha um sonho. De onde ela tirou ele ninguém sabe, nem ela mesma. Um dia essa pequena realizou esse sonho, ou melhor, começou realiza-lo. Lá foi feliz e triste. Riu e chorou. Ganhou e perdeu. Lá fez amizades, mas também aprendeu desfaze-las. Se enganou e também foi muito enganada. Mas a pequena não se importava ela amava o que fazia e aquilo era o que queria. Os verdadeiros abriram seus olhos, ela também tentou abri-los, porém ainda era pequena, ainda precisava aprender. Passou um, dois, três… e lá se foram dez anos. Nesse tempo a pequena cresceu, quebrou a cara, chorou por quem não merecia, ouviu coisas que não queria, se machucou interna e exteriormente. Também foi feliz, conheceu pessoas, e acima de tudo aprendeu com tudo o que viu. Aprendeu a ser forte. A pequena mudou, e muito. Já não amava isso como antes, na verdade apenas tinha medo. Medo de trocar aquilo que já era costume, medo de se arrepender, de se arriscar. Mas a vida se encarregou de tudo, mostrou a ela de uma forma infelizmente dolorida que não podia ficar presa aquilo, e ela não ficou. Arriscou, chorou, decepcionou-se com alguns, alegrou-se com outros, já não era mais presa ao seu sonho de infância. A pequena, que já não é pequena, não se arrepende de ter ido atrás do sonho, mas agora vive, aproveita, e é mais feliz. As marcas que ficaram nos pés a manicure arruma, as que ficaram na alma o tempo cuida.”

Visitem o blog da Micaela! 😀

Sobre bebidas quentes e queimaduras

26 jul

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Era uma sexta feira a noite. Ela estava silenciosa, sentia frio. Estava agarrada ao seu edredom e sua xícara ao lado, na cabeceira. Tinha um olhar misterioso e perdido. Piscava pouco. Pensava muito. Decidiu beber um gole da sua bebida, mas já estava fria. Vestiu o roupão e foi até a cozinha, despejou a bebida no bule e a aqueceu no fogão.

Sentou-se no banco da cozinha, ainda séria e silenciosa. Com um leve toque, mexeu nos cabelos e apoiou sua mão no queixo e o cotovelo na mesa. Tinha o olhar fixo em um só ponto. Esperou cinco minutos e desligou o fogo. Despejou novamente a bebida na xícara e bebeu um gole. Se queimou, pois estava muito quente e a bebida já não tinha o mesmo gosto bom de antes. E de seus olhos escorreram lágrimas que foram logo limpadas com as próprias mãos.

Sem pensar, jogou a bebida quente na pia e lavou a xícara. Estava pronta para outras bebidas. Mais mornas, mais gostosas, novas, frescas. Ela deu uma risada abafada. Estava sozinha. Sentiu um alívio por isso. Voltou para o quarto, deitou-se, desligou o abajur e tentou dormir. O dia de amanhã estava chegando e, por mais sensível que ela fosse, a queimadura iria sarar.

Trecho de O Pequeno Príncipe

4 fev

85042362   ”É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou, perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido, desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles te foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que na tua caminhada não cometas estas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim, um recomeço.”

Antoine de Saint-Exupéry.